Ecos e outros efeitos sonoros do corredor

Hoje ouvi passos de salto alto no corredor do andar onde moro. Por alguns milésimos de segundo, tive a sensação de que seria minha mãe chegando. Porque sempre foi assim. Sempre que ouvi salto alto no corredor era minha mãe, ora bolas. Talvez meus vizinhos não usassem salto, não sei. O fato é que agora, morando sozinha, o toc toc me traz saudade. Ele sai do elevador, se aproxima… –  e some, junto com a esperança.

Além do salto da vizinha e do sentimento de solidão por ele reavivado, outros ruídos compõem a fauna sonora do corredor. Um deles, que elegi o pior de todos, é a criança-berro da vizinha (que aliás, deve ser a dona do salto). A criatura consegue chorar umas dez vezes por dia (vale destacar que passo umas 15 horas do dia fora de casa). Isso sem contar quando está feliz e resolve gritar. Infelizmente, hoje me ocorreu que talvez sejam dois bebês ao invés de um.

E também tem as conversas de corredor. Bem lembrado! Por que conversar no corredor, eu vos pergunto? Inventaram salas, quartos, cozinhas, paredes enfim! Mesas, cadeiras, sofás, portas que se fecham e tudo o mais! Custa se despedir dentro do apartamento? Ou pelo menos, custa ser breve? Precisa contar piada no corredor? Precisa rir com eco? Não, não precisa.

E só para constar. No tempo que escrevi esse texto, todos esses barulhos desfilaram pelo meu corredor — cada um umas três vezes.

Essa sou eu, coisa e tals

Nunca fui uma pessoa muito decidida. Comecei a desconfiar disso quando minha professora da creche me pediu que desenhasse aquilo que eu gostaria de ser quando crescesse. Pelo desenho, hoje vejo que eu nunca tinha pensado muito a fundo a questão. Rabisquei um mulher com longos cabelos lisos e esvoaçantes –  e dirigindo um táxi. Nada contra taxistas; aliás, adoro conversa de táxi. É quase uma terapia. Posso xingar o trânsito, falar da vida, perguntar o que quiser. Tô pagando, ué.  Mas convenhamos que como ambição de vida é, no mínimo, inusitado.

A pergunta da professora ficou martelado na minha cabeça desde então, como inclusive deveria ser o propósito daquele exercício cruel. Ao longo dos anos, almejei  ser bailarina, ginasta, a Xuxa (apesar de não ser loira, minha primeira grande frustração), psicóloga, veterinária, filósofa, cantora, advogada (sabe o diabo por quê), historiadora, diplomata, voluntária da ONU e por aí vai. Para o bem ou para o mal, quis o destino que meu vestibular fosse na minha fase quero-ser-jornalista. Hoje, por exemplo, já pensaria diferente. Hoje eu quero ser socialite.

Essas e outras incertezas me persseguiram a vida toda. Outro exemplo é de quando comprei um rato de estimação. Não, não era branquinho, de olhinhos vermelhinos e com o focinho róseo. Era cinza, gordo e feio. E ainda mordia, para completar. Pois bem. Quando o comprei (é, paguei por ele), naturalmente, ele  não tinha nome. E eu não queria qualquer nome. Eu queria O NOME. Semanas se passaram, eu perdi a paciência e por fim batizei: Rato. Assim, com maiúscula. Hoje tenho um peixe chamado Peixe. Bom, todos esperamos que eu não tenha um filho tão cedo.

E essa é uma das razões pela qual eu nunca tive blog. Sobre o que escrever? Para quem escrever? Por que escrever? Ainda não sei sobre o que e tampouco para quem. Só sei que preciso escrever. E esse título meio pretensioso (ainda assim, muito melhor que Blog) retrata um pouco o que eu [acho que] quero da minha vida e por que escrevo. Com o tempo, eventualmente surgirão mudanças no texto. Pretendo um dia postar em inglês, inclusive. Mas isso é assunto para daqui a uns duzentos posts, se eu chegar até lá.

E prometo coisinhas mais multimídia no futuro.

Hasta.