Hoje ouvi passos de salto alto no corredor do andar onde moro. Por alguns milésimos de segundo, tive a sensação de que seria minha mãe chegando. Porque sempre foi assim. Sempre que ouvi salto alto no corredor era minha mãe, ora bolas. Talvez meus vizinhos não usassem salto, não sei. O fato é que agora, morando sozinha, o toc toc me traz saudade. Ele sai do elevador, se aproxima… – e some, junto com a esperança.
Além do salto da vizinha e do sentimento de solidão por ele reavivado, outros ruídos compõem a fauna sonora do corredor. Um deles, que elegi o pior de todos, é a criança-berro da vizinha (que aliás, deve ser a dona do salto). A criatura consegue chorar umas dez vezes por dia (vale destacar que passo umas 15 horas do dia fora de casa). Isso sem contar quando está feliz e resolve gritar. Infelizmente, hoje me ocorreu que talvez sejam dois bebês ao invés de um.
E também tem as conversas de corredor. Bem lembrado! Por que conversar no corredor, eu vos pergunto? Inventaram salas, quartos, cozinhas, paredes enfim! Mesas, cadeiras, sofás, portas que se fecham e tudo o mais! Custa se despedir dentro do apartamento? Ou pelo menos, custa ser breve? Precisa contar piada no corredor? Precisa rir com eco? Não, não precisa.
E só para constar. No tempo que escrevi esse texto, todos esses barulhos desfilaram pelo meu corredor — cada um umas três vezes.